Longe das câmeras e dos palanques, o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB) e o senador Marcelo Crivella (PRB) travam uma batalha silenciosa por um espólio que pode dar a um lado ou ao outro a mais importante cadeira do Palácio Guanabara: a preferência dos evangélicos que votaram em outros candidatos no primeiro turno.
Enquanto o PMDB tenta frear o movimento destes votos migrarem para Crivella, o PRB dialoga com outras denominações cristãs, para tentar mostrar que o senador é mais do que o bispo licenciado da Igreja Universal do Reino de Deus. Num estado com 4.696.906 de evangélicos (29% da população, segundo o IBGE), os dois lados já empunham as armas.
— Vamos deixar claro que Crivella é sobrinho do bispo Edir Macedo. Os outros líderes evangélicos vão participar disso, vão nos ajudar. Eles compraram todos os tempos de TV para impedir que os outros apareçam — atira Jorge Picciani, presidente do PMDB do Rio, derrotado por Crivella em 2010 na briga pelo Senado.
O publicitário Lula Vieira, marqueteiro da campanha de Crivella, já tem uma estratégia traçada para reverter isso:
— Crivella nunca fez lei a favor da Igreja. Vamos mostrar que é estranho que a única crítica que tenham contra ele é o fato de o candidato pertencer a uma igreja. É muito pouco diante de guardanapo na cabeça em Paris e cachorrinho voando de helicóptero.
Crivella vai reforçar a interlocução com outros setores da sociedade, para tentar quebrar a imagem de que é apenas um bispo da Universal. O apoio público à criminalização da homofobia, no primeiro turno, ajudou nisso. A campanha vai intensificar a imagem de um líder acima de religiões. Para quem tenta acuá-lo por ser da Universal, ele rebate:
— O problema do Rio não é misturar política com religião. É misturar política com corrupção.
Silas Malafaia declara guerra a senador
O pastor Silas Malafaia ainda não se decidiu sobre o apoio a Pezão ou a neutralidade, mas diz já estar certo em pelo menos um quesito:
— Não vou apoiar Crivella. Já decidi isso — afirma o líder da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo.
Malafaia vocaliza algo que a campanha de Pezão tenta disseminar entre os demais segmentos evangélicos: a ideia de que Crivella não é solidário aos irmãos da mesma religião.
— Na época das eleições, ele é evangélico. Depois, é Igreja Universal. Já falei na cara do Crivella: se vocês não consideram seus irmãos de fé, como vão considerar outros setores da sociedade? — dispara Malafaia.
Procurado, Crivella respondeu, por meio de sua assessoria, que “costuma pregar, fora do período de campanha, em todas as igrejas, inclusive na de Malafaia”.
O cientista político Cesar Romero Jacob (PUC-Rio) não acredita que os votos evangélicos de Anthony Garotinho e Lindberg Farias migrem facilmente para Crivella.
— A entrada do Estado na periferia e o acesso à internet diminuíram o poder dos pastores sobre o voto deste eleitorado — pondera.

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