A chamada “cura gay” envolve polêmicas de todos os lados. Para
quem é homossexual, o termo pode sugerir que existam pessoas que acreditam que
são doentes. Para quem não é, o termo soa um menosprezo à inteligência alheia,
pois sugere que aqueles que não concordam com a homossexualidade, assim pensam
porque acreditam que é uma doença.
O
jornalista Felippe Canale, do site Vice (voltado ao público
gay) escreveu uma matéria sobre a chamada “cura gay”, e como forma de entender
o que acontece nas igrejas neopentecostais, foi a uma reunião da Igreja
Universal do Reino de Deus.
“Resolvi
ir […] e averiguar se existe mesmo uma cura e quanto ela custa. Confesso que
fiquei meio apreensivo. Eu já fiz matérias em que abordei prostitutas, garotos
de programa e moradores de rua, mas nunca havia ficado tão tenso quanto naquela
visita à igreja. Acabei bebendo umas doses de whisky para tentar relaxar”, escreveu Canale.
Ao chegar à igreja, disse
ter pedido “proteção ao meu deus” e tentado entrar de maneira discreta: “As
minhas tatuagens nos braços e na nuca, ou talvez o meu cabelo moicano, chamaram
a atenção dos fiéis e, ao invés de me sentir um peixe fora d’água, me senti um
peixe na chapa quente, sendo fritado por olhares que me diziam que eu não
pertencia àquele lugar. Me sentei em uma fileira da frente, pois queria ser
visto e poder avaliar melhor como as coisas funcionavam ali”, relatou.
A estratégia do jornalista
era obter uma impressão mais próxima da realidade, sem se apresentar como
repórter: “Eu estava decidido a falar com o pastor após o culto, só não sabia
direito como faria isso sem que ele percebesse que eu estava ali em busca de
uma reportagem”, contou. A oportunidade, segundo ele, surgiu no momento em que
o pastor começou a pedir contribuições.
“Peguei a fila indiana que
se formou e abri a carteira enquanto andava junto com outras pessoas. Só então
percebi que tinha apenas uma nota de R$ 50,00 e mais nada. ‘Como sou estúpido’,
pensei. Mas já era tarde, fiquei constrangido de voltar ao meu lugar sem
mostrar o valor da minha fé. Ao colocar a nota em cima da Bíblia me senti um
pouco mal, mas fui incentivado pelo pastor, que me olhou com um sorriso largo e
fez um sinal de que queria falar comigo após o culto. Bingo! Consegui chamar a
sua atenção sem precisar abordá-lo. De estúpido passei a me sentir sortudo!
Pelo que vi, a maior contribuição do dia havia sido a minha e talvez isso tenha
chamado a atenção dele”, afirmou o jornalista.
Na sequência da
reportagem, Felippe Canale reproduz um diálogo em que ele finge intenções e o
pastor, de acordo com a doutrina que prega, sugere ações:
“Após o culto e com a igreja
quase vazia, eu subi no palco e recebi um aperto de mão acompanhado de uma voz
suave:
– Você está aflito, não é
mesmo? Eu percebi assim que você entrou por aquela porta. Como Jesus pode lhe
ajudar?
– Padre, eu vim aqui…
– Não sou padre, sou pastor!
– Desculpe, é a primeira vez
que eu venho e não sei direito…
– Não tem problema, estou
aqui como um instrumento de Deus. Pelo seu hálito eu vejo que você tem
problemas com o álcool, certo?
– Não, não tenho… Quer dizer,
eu bebi um pouco antes de vir para cá, eu estava meio tenso.
– Fique tranquilo! Para tudo
há uma solução e isso só depende da sua fé. Pode abrir o coração e dizer o que
te aflige.
– Bom, eu vou ser direto. Eu
tenho uma namorada, mas às vezes eu pratico a homossexualidade. E isso não
deixa o meu pai feliz. Ele está muito doente, à beira da morte já, mas eu quero
que ele morra sentindo orgulho de mim. Por isso eu procurei vocês. Eu tenho um
irmão que usava cocaína e só conseguiu se curar na igreja. E eu acredito que
Deus possa me curar também.
– O seu irmão frequenta a
Universal de qual cidade? Você sabe o nome do pastor?
– Não sei o nome do pastor,
mas sei que é no interior de São Paulo, ele mora lá. Posso perguntar pra ele…
– Entendo. Bom, você veio ao
lugar certo. O homossexualismo é condenado pela Bíblia e não é um comportamento
digno de quem tem Jesus no coração. Às vezes o diabo vem na forma de um amigo
que te leva para o mau caminho, aí você se sente culpado e desconta no álcool.
Mas se você realmente está disposto a entregar a sua vida para Jesus…
– Eu estou sim, vou fazer
tudo que for necessário. Eu só preciso saber se realmente é possível deixar de
ser gay. O senhor conhece alguém que já tenha se curado?
– Ninguém nasce gay, a pessoa
passa a ser gay quando o diabo encosta na vida dela. Ser gay é anormal, ninguém
é feliz dessa forma, porque sempre há o sentimento de culpa. Se fosse algo
normal, todo mundo seria gay e não haveria mais famílias. É exatamente por isso
que você se sente tão culpado, bebe e tem nojo do seu comportamento. Estou
certo?
– Sim.
– Eu vejo nos seus olhos que
você tem fé e Jesus vai tocar o seu coração através da oração que vou fazer
para você. Se levante, por favor.
Foi aí que o pastor colocou
as duas mãos na minha cabeça e começou a mexê-la de um lado para o outro, me
causando um pouco de tontura. Fiquei meio constrangido, pois ainda havia
algumas pessoas na igreja e ele gritava enquanto orava: ‘Jesus tem poder, Jesus
é mais forte e eu ordeno que o diabo saia do seu corpo. Queima, capeta! Queima,
pomba-gira! Queima, Iemanjá! Queima, demônio do homossexualismo! Esta alma é de
Jesus e você não pode nada contra nós!’ […] Senti vontade de chorar, tanto que
fiz isso na frente do pastor e de quem estava em volta. Ele perguntou se eu me
sentia melhor após a oração e eu falei que sim, inclusive, que estava chorando
de felicidade e alívio”, relatou o repórter.
Ao final, segundo Canale, o pastor teria dito que tudo não
passava de uma questão de prova de fé: “Satisfeito, ele disse que faríamos
juntos um trabalho de sete sextas-feiras e, caso eu tivesse fé, estaria curado
dentro deste período. Mas, segundo o pastor, eu teria que me dedicar e provar
para Jesus que realmente era merecedor dessa cura. Eu não cheguei a perguntar
qual o valor”, concluiu.
Talvez esse diálogo
explique porque a sociedade construiu o estereótipo de que acreditar que a
homossexualidade é pecado seja o mesmo que odiar o homossexual. Talvez seja
necessário um ajuste do discurso e da prática àquilo que o Evangelho sugere, de
verdade.

0 comentários:
Postar um comentário